2º TURNO: Ecologistas de última hora

Comentário para o programa radiofônico do Observatório da Imprensa, por Luciano Martins Costa em 6/10/2010

A surpreendente votação da candidata Marina Silva, do Partido Verde, produziu um milagre. De repente, todo mundo, inclusive a imprensa tradicional, em peso, virou ecologista desde criancinha.

Os estrategistas dos dois blocos políticos que se lançam à luta pelos votos dados à senadora Marina Silva no primeiro turno das eleições presidenciais podem estar cometendo um equívoco ao caprichar no discurso ambientalista. Em primeiro lugar, nem Dilma Rousseff nem José Serra são do ramo. Quando abrem a boca para falar do assunto, usam expressões tiradas da imprensa tradicional, que tampouco tem familiaridade com os debates e conceitos mais avançados tratados nos seminários e conferências sobre o desenvolvimento sustentável.

Para os especialistas em sustentabilidade, jornalistas e outros profissionais que se dedicam a estudar o tema há anos, soa patético o esforço de neófitos que se apresentam de repente como ambientalistas de carteirinha, a discursar sobre “a economia do carbono”.

Jogo político

Da mesma forma, a imprensa, ao dar curso a tais declarações sem qualquer tintura crítica, apenas reforça a convicção de que os jornais e revistas tradicionais ainda não absorveram os novos paradigmas de negócios, de comportamento e de políticas públicas que se consolidam com as emergências ambientais e sociais.

Além desse aspecto, é preciso uma análise mais profunda para se definir se o discurso ambientalista foi o motivador principal do voto em Marina Silva. É muito provável que, para a maioria de seus eleitores, Marina seja menos importante como defensora da Amazônia do que como uma resposta ao baixo nível da campanha polarizada entre governistas e oposicionistas.

A disputa feroz entre os dois grupos dominantes na política nacional pode ter provocado em boa parte do eleitorado a decisão de mandar um recado: pode haver uma terceira via.

Tampouco se deve afirmar, apenas poucos dias depois da votação, que todos os votos descarregados na candidata do Partido Verde representem uma decisão madura em favor de novas práticas no jogo político: o Partido Verde deixou de ser – ou nunca foi – exemplo de agremiação ideologicamente definida em torno de um programa. Suas bancadas estaduais, onde existem, não se distinguem dos demais partidos que aderem à mais proveitosa alternativa de poder.

Apenas mais do mesmo

Claramente, se houve alguma influência dos escândalos e um posicionamento de parte dos eleitores por mais ética, que conduziu votos para Marina Silva, o mérito é da candidata, não do partido pelo qual disputou a eleição.

Por outro lado, é preciso refletir se, eventualmente, a candidatura do Partido Verde tivesse chegado ao segundo turno, e, numa virada espantosa, vencesse a eleição, que condições teria a candidata de compor alianças diferentes, em termos de idoneidade, das que atualmente conduzem a política no plano federal e no âmbito dos estados.

Da mesma forma, é de se questionar que concessões estão neste momento sendo negociadas em todos os grupos que se digladiam no segundo turno, tendo em vista a necessidade de conter certas ambições que estão na origem de tantos escândalos.

Não se espera da imprensa tradicional esclarecimentos equilibrados sobre os bastidores das barganhas que certamente já se desenrolam por baixo dos panos, com promessas de cargos e outras práticas. Afinal, os jornais considerados de influência nacional e as revistas semanais de informação, com suas redes de rádio e televisão associadas, já deram sinais muito claros, até mesmo com declaração pública, de que têm sua preferência.

Nas três semanas que faltam para a decisão nas urnas, não se há de esperar que a imprensa decida de repente jogar com mais transparência. Ao dar curso às constrangedoras manifestações de conversão ao breviário ambientalista dos dois candidatos que vão disputar o segundo turno, sem a necessária filtragem de biografias e práticas de gestão, e sem uma profunda análise do que representa cada proposta de desenvolvimento que apenas se adivinha nas entrelinhas da campanha, a imprensa não ajuda a entender o momento político e a relação de cada com os valores da sustentabilidade.

Por seu comportamento durante toda a campanha – e a exemplo de disputas anteriores – ainda está para ser provado que a mídia tradicional do Brasil deseja de fato esclarecer alguma coisa quando trata de política.

Mas esta é uma grande oportunidade para que a imprensa coloque na agenda pública a questão do desenvolvimento sustentável, exigindo dos dois candidatos que se comprometam com os novos valores defendidos por Marina Silva, e não apenas no discurso de campanha.

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